A vida sempre procura uma fresta

Por Fredi Jon

Para mim, o Dia de Finados deixou de ser apenas uma ocasião para lembrar os que partiram. Tornou-se um convite, às vezes doloroso, a questionar os que ainda estão aqui.

Foi nesse dia que perdi minha mãe. Eu chegava a uma serenata em Moema quando o telefone tocou. Do outro lado, o hospital me comunicava sua partida. Eu estava prestes a cantar para celebrar uma vida, mas naquele instante precisava aprender a conviver com a grande perda. O violão continuava em minhas mãos, mas dentro de mim uma música havia silenciado.

Desde então, passei a observar a existência com outros olhos.

Certa vez, nasceu uma flor na janela da minha cozinha. Não havia ali terra suficiente, espaço adequado ou condições que alguém consideraria favoráveis. Era um lugar quase impossível para florescer. Mas ela encontrou uma brecha. Brotou, cresceu e, um dia, ofereceu sua primeira flor.

Quando percebi sua existência, comecei a regá-la. E tive a impressão de que ela havia descoberto que, para continuar existindo, precisava florir. A cada nova flor, minha atenção se renovava, e mais água eu lhe oferecia. E assim ela floresceu até morrer.

Fiquei pensando: por que a natureza procura qualquer fresta para explodir em vida, enquanto nós, tantas vezes, encontramos todas as razões para não florescer?

Uma pequena planta desafia a impossibilidade, enquanto seres humanos, donos de pensamentos, escolhas e horizontes, aceitam viver em gaiolas. E não falo apenas das gaiolas dos pássaros, mas também daquelas que construímos para nós mesmos: o medo, o preconceito, as paixões que aprisionam, as ideologias que proíbem pensar e as certezas que nos impedem de enxergar.

Como pode quem recebeu asas para voar contentar-se com o espaço entre quatro grades? Quantos continuam respirando, mas já não encontram coragem para discordar, mudar de caminho ou simplesmente ser?

Talvez estar vivo seja procurar frestas, mesmo quando o mundo parece não oferecer portas. Seja compreender que raízes nos dão sustentação, mas não precisam nos impedir de crescer.

E há algo que me ajudou a atravessar a ausência dos meus pais: a música. Ela sempre foi libertadora. Não apagou a saudade, não devolveu presenças, tampouco negociou com a morte. Mas me ofereceu caminhos para continuar. Há uma espécie de milagre em transformar aquilo que dói em algo que pode ser compartilhado. Enquanto canto, não fujo da vida: reencontro-me com ela. Enquanto canto, vivo.

Hoje, quando entro em uma serenata, sei que cada canção carrega uma urgência silenciosa: dizer enquanto há tempo, abraçar enquanto há braços, amar enquanto há presença.

Minha mãe partiu, minha flor também. Ambas me deixaram uma reflexão sobre a brevidade e a beleza da existência.

Neste Dia de Finados, talvez devêssemos visitar não apenas os túmulos de quem partiu, mas também os sonhos que enterramos dentro de nós.

A natureza não pede licença para florescer. A música não pede licença para nos libertar. Por que nós pedimos tantas autorizações para viver?

A morte nos ensina que o tempo é limitado. A vida deveria nos ensinar o que fazer com ele.

E que não esperemos a última serenata para descobrir que ainda havia tanta música dentro de nós.

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